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Felipe Morozini é um fotógrafo que sabe das coisas. Seu trabalho tem mais que técnica apurada. Suas histórias montadas ou ocorridas, resumidas em instantes delicados, abrem mundos para o espectador mais atento. Como eu adoro sua série com bonecos em microdramas sobre a mesa! Mas seus contos não são só em papel, invadem de pedaços de tecidos a imensos viadutos, e cidades inteiras. Ele tem um olho clínico que não perde uma. Sua arte vem de um cabelo voando, uma cadeira esquecida, uma almofada engraçada ou da louça suja.

O moço sabe bem das coisas. Hoje ele publicou um texto lindo sobre o Instagram, que rapidinho se alastrou pelo Facebook. De forma bem humorada e sensível, analiza o sucesso estrondoso da ferramenta, que já caiu nas graças até da tua mãe, e talvez a tua avó (família sempre é um termômetro bom para o alcance de novas tecnologias). O que mais me interessou no artigo é que seu ponto de vista sobre a chamada popularização do aplicativo é parecido com o meu. Mas ele tem uma visão mais leve e compreensiva do que alguns chamariam de ‘orkutização’ do Instagram. Eu sou mais impaciente e chato, e isso me desestimula um pouco a usá-lo.

O problema do Instagram não é sua popularização, mas sim seu mau uso. Algo semelhante com o que aconteceu com o Twitter. Antes, com uma lida rápida na sua página, você descobria uma banda nova bacana, achava o texto contundente de algum crítico, dava umas risadas com um amigo mais ácido, fugia do trânsito caótico na hora do rush e ainda se programava para a festa da noite. De repente, essas informações úteis se perderam, e tudo que restou foi gente reclamando do chefe, avisando quantas vezes foi ao banheiro e se vangloriando do ‘almocinho delicinha com a fulaninha’. Assim, tudo pequenininho. Não vejo problema que popularize, pois sigo apenas quem quero. Mas o assunto acabou, ou pelo menos ficou no diminutivo.

O Instagram é, essencialmente, um aplicativo de fotos. Mas também é uma rede social, e aí parece acontecer a confusão dos desavisados. Se eu tiro uma foto de recordação com um amigo de infância, eu vou guardá-lo para sempre. Vou mandar para os amigos em comum. Mas não sei até que ponto preciso que o mundo saiba do reencontro. Se meu gato deu uma cambalhota engraçada, eu deveria filmá-lo, pois a foto não mostra o que aconteceu. Se o prato que comi no restaurante estava incrível, eu tenho que pegar a receita, pois a foto não tem gosto ou cheiro. E, acredite, raviólis haverão muitos! Talvez melhores ainda. E em dia de show, então? Se você juntar todas as fotos e ligar a música no Itunes, praticamente assiste como se estivesse lá. Isso porque sempre as pessoas estão longe, o lugar é escuro e as fotos tem uma qualidade péssima.

Alguns são ainda mais exibicionistas e querem que todos saibam, por exemplo, que estão indo viajar. Ah, os aeroportos! Aqui no Brasil não conheço um único que tenha uma arquitetura digna de ser registrada, mas eles estão lá, todos os dias, como uma forma de ganhar status. Acho que daí vem também a avalanche de hashtags. Quanto mais #s você usar, mais fácil será de encontrarem tuas fotos em buscas. Se cada ‘like‘ ainda valesse dinheiro, confesso que eu também usaria, mas ainda não acho que é o caso.

Separando o joio do trigo, acabo seguindo apenas aqueles que são excelentes fotógrafos, os que tem um incrível senso de humor, e os que contam suas pequenas histórias do cotidiano com critério. O Felipe, por exemplo, tem os três. A sorte é que ainda não existe a neurose do unfollow no Instagram. Eu posso deixar de te seguir sem que você saiba e se ofenda. Senão, já tinha desistido, como fiz com o passarinho azul.

Em tempo: Eu não gosto do termo ‘orkutização’, acho ele uma crítica besta dos que querem estar à frente (sem realmente estar). Acho que quem usa é quem não suporta a ideia de dividir espaço com a manicure ou o filho da faxineira. Inclusive acho que o Orkut caiu em desuso não pela popularização, mas pela falta de privacidade, que o Facebook ainda oferecia lá no começo. Mas isso é discussão para outro post.

3 Responses to “Twitterização do Instagram”

  1. Tiago

    Enquanto você acha os profiles das pessoas que postam foto de comida, cachorro e aeroportos sem sentido, será que eles também não tem a mesma opinião sobre o seu pretenso poço de cultura e bom gosto? Será que essa visão de que você é tão erudito não é só sua?

    Você critica o termo ‘orkutização’ mas parece ter um pavor da ‘gente diferenciada’ que apareceu no seu querido Instagram, né?

    Em tempo: sequer uso instagram.

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    • Renato Salles

      Tiago,

      Com certeza deve ter gente que olha as minhas fotos e não acha graça nenhuma. Isso é absolutamente normal e justo. Mas para isso a pessoa tem a possibilidade de não me seguir, como eu faço com todos os que eu não gosto. A questão não tem nada a ver com erudição, porque não acho que o telefone possibilite a alguém grandes obras. Minha crítica é à falta de assunto, e a confusão que alguns fazem entre álbum pessoal de fotos e a rede social. É a tênue linha que define o termo ‘oversharing’.
      Não acho que todos os dias eu cruze com 20, 30 temas ou coisas tão interessantes que valham a pena ser divididas com o mundo. Com certeza os que tem tanto assunto são poucos. Talvez uma das maiores virtudes da internet seja também um dos maiores problemas. O conteúdo é tão livre e social que às vezes ele é vazio ou desnecessário.
      Mas, como no texto, eu admito: eu sou chato. Sou dessas pessoas que tem pouco tempo sobrando, então procuro na internet coisas que me inspirem, emocionem, instruam ou divirtam. Até criamos esse blog com essa ideia: um lugar com conteúdo bacana e direto, sem encheção de linguiça, e sem perda de tempo.
      Acho tua crítica válida, e toda discussão tem que ter a visão antagônica. Só não concordo com a questão da ‘gente diferenciada’, pois não faço qualquer distinção sobre os autores dessas fotos. Inclusive deixei de seguir vários amigos próximos, pois acho que nossos interesses fotográficos não combinam. A ‘orkutização’ de que tanto se fala é uma forma de separação de grupos sociais (ou digitais) por ‘coolness’ (um conceito bem nebuloso) sem qualquer relação com o conteúdo que cada uma delas gera.
      Eu sou chato, mas sou grande defensor das liberdades individuais e da coletividade. Meu texto não pede que as pessoas parem de tirar suas fotos, mas sim que ela avaliem o quanto de suas vidas pessoas deve ser compartilhado. Bom senso nunca é demais.

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