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Dizia o ditado que a grama do vizinho é sempre mais verde. Estamos sempre na ponta dos pés para olhar por cima do muro, e esquecemos de cuidar, e celebrar, nosso próprio jardim. Eu nasci, e moro até hoje, em São Paulo. Sei muito bem que a maior cidade da América Latina, e uma das maiores do mundo, não é fácil. Tem gente que acha ela uma das mais excitantes, outros só vêem ela como uma das mais feias. O fato é que não se pode passar incólume. É preciso odiá-la um pouco para poder amá-la. E posso garantir que ela vai fazer de tudo para que você a odeie antes. Os clichês estão todos lá: trânsito, poluição, caos, burocracia. Mas o buraco é mais embaixo.

Confesso que ando frustrado com a cidade. A impressão que tenho é que chegamos a um nível de neurose urbana coletiva, que a única solução é a intolerância e o veto. A violência aumenta, sobem os muros. O bar fez sucesso e encheu, chama o PSIU. O show está muito cheio, área VIP. Esta também ficou muito cheia, VIP do VIP. Queremos aumento, greve. Queremos fumar maconha, passeata. Queremos andar de bicicleta, passeata. Queremos ser gays, passeata. Queremos rezar em paz sem os gays, mais passeata. Meu time ganhou, ou perdeu, passeata, de preferência com briga. Nos tornamos truculentos. Antes de qualquer diálogo, partimos para a luta, e entramos no caminho de quem for, mesmo quem não tem nada a ver com isso. Estamos a um passo das malucas ucranianas que tiram a roupa para protestar contra o que for, só pelo prazer de protestar. E nisso, acho que a cidade fica engessada, chata e excludente. Tudo vira proibido.

Nessas horas, nada melhor que um olhar de fora para nos abrir perspectivas. Lendo esse maravilhoso texto da editora da revista Time Out São Paulo, Claire Rigby, parece que as nuvens se abrem. Penso em todos os amigos gringos que fiz nos últimos anos, que morrem de amores pela nossa selva de pedra: alemães, dinamarqueses, italianos, suecos, americanos, ingleses, canadenses, coreanos, e por aí vai. Julian Moura Busquets é um desses estrangeiros e, depois de um ano morando aqui, resolveu mostrar sua experiência em um vídeo incrível.

E vendo assim, do jardim do vizinho para dentro, consigo uma perspectiva mais positiva da minha pequena megalópole natal. Penso então na tomada furtiva das ruas pelos ciclistas, na disseminação da cultura (e agora da gastronomia) na Virada Cultural e no Cultura Inglesa Festival, na valorização do Centro impulsionada pela vida noturna, na criação de eventos e ações das mais diferentes nos espaços públicos, e começo a acreditar que temos jeito. São Paulo se tornou, nos últimos 20 anos, a cidade dos prédios, dos carros, dos shopping centers. E pela primeira vez eu vejo agora que os paulistanos, naturais e adotados, querem que essa seja a cidade da rua. Essa, sim, é a parte que eu amo.

PS: Sim, a Lalai já escreveu sobre as mesmas coisas, mas eu estava escrevendo exatamente ao mesmo tempo que ela, pois lemos o texto da Claire Rigby juntos. Optei por manter o texto original que tinha escrito, e só publiquei um dia depois para não cansar ninguém. ;-)

PS 2: Hoje curiosamente me deparo com essa texto impecável do professor João Whitaker, no blog da urbanista Raquel Rolnik, com quem tive a chance de estudar na faculdade. Vê-se bem que tem muita gente pensando como eu.

 

One Response to “Terra da garoa”

  1. luiz

    Eu que sempre fui o maior entusiasta de são paulo, já me enchi os pacovás. A cidade encaretou ao ponto de eu não ter a menor vontade de sair de casa – sem contar como tudo está tão caro: dizem que sp ficou cara por causa da internacionalização da cidade.
    O politicamente correto, a falta de opinião, e principalmente a falta de respeito fizeram esse sentimento de qse-odio em mim.

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