calligraphy 006 blog

Desde o primário eu era daqueles alunos com uma linda caligrafia, que na época era chamada de ‘letra de menina’. Nada de estrelinhas em cima dos ís ou qualquer outro floreamento. Eu só tinha uma letra firme, uniforme e perfeitamente legível. Era quase uma Helvetica da letra cursiva. Isso, claro, ainda no tempo em que trabalho se fazia debruçado sobre uma enciclopédia. Você aí, nascido depois de 1990, não vai entender do que estou falando.

Nove anos depois da minha última formatura, e definitivamente estabelecido na ‘era da informática’, eis que eu resolvo que está na hora de voltar a estudar. Com opções como ‘Gestão em Negócios com Ênfase em Física Quântica’ ou ‘Semiótica das Tendências de Branding do Mundo Globalizado’, optei por um bom e velho curso de francês. Na primeira aula já fiquei constrangido ao perceber que precisaria de um caderno. Moleskine eu carrego todo dia há anos, mas sempre para rabiscar o telefone de alguém, ou anotar uma medida na obra, mas um caderno, como no colégio… nem sabia mais o que era isso.

Comprei um bem bonito para ver se me empolgaria e deixaria ele limpo e arrumado, como fazia na época daquele espiral com 10 matérias. Quem dera! Não consigo sequer organizar a matéria, separando notas de vocabulário das de gramática. Isso sem falar da letra. Acho que os anos e anos dependendo exclusivamente do amigo QWERTY fizeram minha mão atrofiar a musculatura, e minha letra de menina virar a de um moleque sujo e bagunceiro.

A coisa está tão feia que outro dia tinha que rubricar todas as folhas de um contrato, até chegar naquela úlitma página onde uma linha grossa protege um grande espaço branco com meu nome embaixo, exclusivo para eu deixar minha assinatura, tão pessoal e original. A primeira página foi bem, mas o garrancho foi se deteriorando a cada repetição, que no clímax do documento, nem eu mesmo reconheceria minha marca. Mas e agora, que fazer? Fisioterapia na mão? Aulas de caligrafia? Acho que eu não passaria do primeiro alongamento de dedos. Vou ali pelo menos treinar a minha assinatura, antes que eu perca os direitos autorais sobre ela de vez.

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