
Eu estava vendo outro dia um desfile da Chanel, e logo depois apareceu uma entrevista curtinha da jornalista de moda com o grande Karl Lagerfeld. A conversa não tinha nem pé nem cabeça! A jornalista, num inglês de ginásio, babava ovo para o estilista, e este explicava sua coleção com argumentos dignos de filosofia de universitários experimentando maconha. Depois apareceu uma connoisseuse fashion que conceituou a coleção muito melhor que o próprio criador, apesar de eu sinceramente achar que ela ‘viajou na maionese’. Fiquei pensando nas milhares de vezes que vi estilistas, diretores, artistas em geral divagando sobre como seu trabalho ‘discute a participação do público’, ou ‘propoe a interação com o observador’, ou outro release pronto que a assessoria de imprensa tem nos favoritos. A pop-art usou e abusou de ready-mades, mas nunca de uma forma tão vazia.
Curiosamente, me deparei com essa exposição no Museu de Arte Contemporânea da Australia, que fez com que pela primeira vez esses conceitos vazios se enchessem de significado, ou pelo menos de discussão. O artista Stuart Ringholt literalmente coloca o público em contato com a sua arte sem barreiras. Todo mundo que entra deve antes tirar toda a roupa para admirar sua exposição. Isso mesmo, todo mundo como veio ao mundo. Não sei se a exposição é boa, mas colocar o espectador numa posição tão vulnerável é no mínimo intrigante. Admito que não sei se eu consigo olhar para um quadro do mesmo jeito estando com roupas ou sem.

Será que os estilistas vão começar a apresentar coleções de nudez agora, para preencher seus vazios conceituais?

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