
Cena clássica: a mocinha, desolada, jogada no chão, chora pelo amor perdido, pelo dinheiro que sumiu, pelo cachorrinho que morreu, não importa. Mas ela chora, copiosamente. Do outro lado, o vilão altivo, rico, bonito e elegante, ri com gosto, desdém e malícia. Ele se delicia com a desgraça alheia, e se enche de orgulho por manter todos ao redor ao seus pés. Será que o bem triunfará? O vilão pagará por suas malfeitorias? Nós aprendemos desde cedo que sim. Walt Disney nos ensinou isso. A Bíblia também. A Rede Globo faz isso todos os dias das 6 as 10 da noite. No final da história, tudo ficará bem. Mas quando é esse fim?
Personagens maus são sempre caricaturas da vilania. O fazer o mau é um meio e é um fim em si, e é saboreado com soberba. Sem drama. Na vida real, os vilões são menos glamurosos. Suas atitudes estão cheias de mesquinhez, inveja e desgosto. Os objetivos são pequenos e egoístas. Mas está tudo lá. Eles existem de verdade. A diferença dos bad guys reais para os fictícios é que eles não se enxergam assim. Não conheço uma única pessoa que tenha admitido ser propositalmente mau, apesar de conhecer muitos que o são. Eu não sou religioso, e não sou dado a maniqueísmos. Já fui arrastado pela culpa, já desejei castigo para os outros, hoje evito. Se karma existe, ele é muito menos óbvio do que parece. Prefiro agora fazer o que julgo justo, mesmo que seja desvantajoso para mim. O justo é equilibrado. Beneficia e prejudica a todos na mesma medida.
Daí você vai ler o jornal e é a família trabalhadora que perdeu a casa na enchente, o pai que teve o filho atropelado e morto por um motorista bêbado, a moça bonita que está com câncer. Onde está a justiça nisso tudo? Infelizmente a vida tende a ser injusta, pois somos todos feitos de sonhos. Essas frágeis esperanças que nos fazem humanos são destroçadas com terremotos pessoais diários. E lá estamos todos os dias como dedicados japoneses construindo tudo de novo.
Recentemente, vi uma das pessoas mais generosas que conheço ter seu sonho de infância destroçado por um frio e distante ‘não’. Seu sonho era simples, íntimo, e não afetaria absolutamente ninguém. Mas isso lhe foi recusado, gratuitamente. Enquanto isso, tenho assistido um punhado de grandes Filhos-da-Puta que me cercam passeando felizes por aí. Gente que rouba, engana, mente, manipula, envenena. Vilões de novela mesmo. Nem o mais zen dos monges não se indignaria. Na minha revolta, fui perguntar o porquê. Uma amiga soltou uma frase que está longe de responder, mas ofereceu um alento: ‘calma que o jogo ainda não acabou.’
O jogo, na verdade, nunca acaba. Nunca aparecerá um game over, ou um the end escurecendo a tela, nos dizendo se triunfamos ou não. Mas a analogia do jogo me fez perceber que a nossa batalha contra a injustiça é conosco mesmo. É um exercício diário de acreditar que ‘gentileza gera gentileza’. É não engolir sapo de gente mal-educada, não abaixar a cabeça para sacanagem alheia, não livrar a cara de grandes babacas, mesmo que sejamos nós mesmos os autores das babaquices. A vilania está escondida nos menores atos, e são eles que definem nossa moral.

Hey, lindo texto. A maldade sempre me intrigou bastante principalmente pela complexidade, admito e já escrevi que tenho uma tendencia a ela, me policio constantemente para não retornar a velhos hábitos, mas é difícil. Na maioria das vezes minhas maldades são menores, não interferem na vida do outro, porém, assim como qualquer outro sentimento tende a crescer e foi preciso alguns bons tapas na cara para perceber que estava indo por um caminho desagradável. Independente de qualquer coisa o que vale é o você, ignore o que não te faz bem e vambora :)
Ps: sdd de todos os lindos desse blog (menos o sueco que tá aqui do lado me batendo) hahahah